Crise energética e oportunidades

O sistema de distribuição de energia elétrica, uma das grandes invenções da humanidade, foi criado efetivamente em 1879, quando Thomas Edison conseguiu que uma lâmpada brilhasse por muitas horas.
Desde então, grandes evoluções foram realizadas no setor de eletricidade e a energia se tornou um insumo essencial para as sociedades e um serviço público indispensável. Contudo, o Brasil, como se sabe, tem pago um elevado custo pela eletricidade, principalmente pelo fato de que sua matriz elétrica possui alta dependência hidráulica – cerca de 63% –, o que deixa o setor vulnerável quando há redução das chuvas.

É exatamente o que está ocorrendo nesse momento. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a escassez de chuvas para a geração de energia no país é a pior enfrentada nos últimos 91 anos.
Para atender a demanda e evitar racionamento e apagões, as termelétricas foram acionadas, elevando os custos do risco hidrológico e o preço da energia no mercado. Em junho, a energia foi o item com o maior impacto no IPCA, por conta do acionamento da bandeira tarifária vermelha 2, que informa que a geração da energia está em seu custo mais elevado.

Quando a conta de luz encarece, as distribuidoras de energia são vistas como as grandes vilãs, pois a maioria dos consumidores acredita que elas são responsáveis por todas as etapas que levam ao fornecimento de energia, englobando o produto e a sua distribuição. Na realidade, os custos das distribuidoras são compostos de valores referentes à compra, transmissão, distribuição, encargos setoriais e tributos.

A parcela referente ao custo de distribuição propriamente dita representa em média apenas 17% do total da tarifa, sendo que a maior parcela corresponde ao custo da energia (53,5%), seguida dos tributos (29,5%), que financiam investimentos em serviços como saúde e educação, além das políticas do Governo para o setor. Para manter o equilíbrio financeiro da concessionária e estimular o investimento em eficiência e qualidade, o valor da tarifa é revisto em média a cada quatro anos e, anualmente, é realizado o reajuste tarifário em relação à inflação do período.

Se o alto custo está atrelado sobretudo à matriz energética, diversificá-la, buscando fontes mais limpas e renováveis, e instituir políticas de eficiência energética pode ser parte importante da solução.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética apontam que cerca de 40% da energia produzida no Brasil é consumida pela indústria, sendo grande parte desperdiçada por falta de investimento em tecnologia e modernização. Além disso, apesar de o Brasil ter tido papel importante quando da assinatura do Acordo Climático de Paris, em 2015, comprometendo-se a reduzir em 37% as emissões dos gases de efeito estufa até 2025, por meio da descarbonização da sua matriz energética, hoje encontra-se distante desse compromisso.

Um importante movimento, o ESG (Environmental, Social and Governance) pode contribuir não só para que o país cumpra as metas do acordo, mas também para que possa superar crises energéticas como a atual. Isso porque dentre outras preocupações, o ESG incentiva que as empresas invistam em programas de eficiência energética, utilizando energia de modo racional.

No cenário de retomada econômica atual, em que as empresas precisam ser ainda mais atrativas para os investidores, a implantação de projetos desse tipo para reduzir custos operacionais e aumentar a produtividade podem significar um ganho em competitividade, com possibilidade de retorno financeiro aos acionistas, além de contribuir para que o país enfrente a crise sem a necessidade de racionamento e risco de apagões.

Por Vivian Nicodemos Augusto – Gerente Jurídica